sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

AINDA PADRE ADELMAR

A  VALENTIA  DE  EDSON  MONTEIRO

EDSON era o filho caçula de Seu Eurico Monteiro e foi dele próprio que ouvi essa história. Lamentavelmente morreu ainda muito moço e, se vivo fosse, estaria repetindo o ocorrido com muito humor. Contava ele que resolveu um dia não mais submeter-se à disciplina férrea de Padre Adelmar, sentindo-se valente e atrevido bastante para desafiá-lo, e quando caiu na malha para receber o famoso cartão de controle das mãos do Diretor, foi logo imaginando:

“É hoje que vou desafiar o padre”.
Apresentou-se ao Pe. Adelmar que estava sentado à frente de sua escrivaninha (daquelas antigas com uma tampa tipo sanfona) para cobrar o seu cartão e ficou em pé esperando de braços cruzados.

O Padre, sem dar uma palavra, catou o seu cartão na pilha da mesa e simplesmente atirou o cartão no peito de Edson que não reagindo, deixou o cartão cair nos seus pés, permaneceu impassível e ousadamente pensou mais uma vez:
“É hoje que eu topo o Padre!”.

Em poucos instantes o Padre, percebendo a indiferença de Edson que permanecia de braços cruzados em pose desafiadora, reagiu e perguntou-lhe o que estava esperando e ele respondeu:
“Meu cartão, que eu não sou cachorro para apanhá-lo no chão”.

Até ai eu fui, Ivan, e aguentei a parada, mas quando o padre reagindo à minha insolência disse: “O que seu moleque?” ao mesmo levantando-se da cadeira para se levantar, abdiquei da coragem, e prontamente disse:
“Não é nada não, seu Padre”.

Covardemente apanhei o cartão no chão e desci as escadas correndo.

A PRIMEIRA VIAGEM DE AVIÃO DE CÍCERO


Nosso querido motorista Cícero, que todo o mundo conhece em Garanhuns, vivia sempre reclamando que há mais de dez anos não via sua mãe morando em São Paulo e já estava bem velhinha. Meu filho Pedro Leonardo, sensibilizado, resolveu patrocinar uma viagem de avião para Cícero ir ver sua mãe e tomou todas as providências necessárias: reserva feita, passagem de ida e volta comprada, e na data marcada ele estava no aeroporto para embarcar.
Minha querida nora Malú, preocupada com a inexperiência e o absoluto ineditismo de viagens de avião, levou Cícero – mesmo que um tanto temeroso - para o embarque e adotou todas as providências para que tudo corresse direitinho.

Não teve dúvidas e de forma previdente, invocando a sua fé de ofício médico, escreveu em um papel de receituário e carimbou embaixo uma declaração “A QUEM AJUDAR POSSA” informando que se tratava de uma pessoa idosa com mais de sessenta anos, hipertenso, nunca viajara de avião e analfabeto juramentado.
Na chegada ao Aeroporto e logo no “check-in”, que Cícero logo denominou de “Chequinho”, mediante a declaração apresentada por Malú, ele foi acolhido de forma especial e conduzido até ao avião pelo funcionário da empresa de aviação que o acomodou logo na poltrona de frente e o recomendou ao pessoal de bordo.

A assistência foi tanta que mereceu a atenção do próprio comandante que, chegando no aeroporto de São Paulo, teve o cuidado de abordá-lo e perguntar se a viagem tinha sido boa, ao que ele logo respondeu:

“Beleza, Comandante !, foi tudo bem, a não ser uns “catabís” que o avião deu de vez em quando lá pra traz”

 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

A LÓGICA PERVERSA DA VIA MANGUE

Alguém já percorreu todo o traçado da chamada “Via Mangue” ? Pra quem não conhece ainda, já ouviu falar o que é a chamada “Via Mangue” e os detalhes de sua concepção observados na implantação da tão badalada Via ? Sem nenhum exagero, trata-se de uma via expressa com 4,5 km de extensão, consistindo em um enorme viaduto assentado todo em pilotis no mangue e que, por isso mesmo, transformou-se na obra de engenharia mais cara de Pernambuco já tendo absorvido recursos na ordem de 500 milhões de reais.

Em se tratando de uma via expressa, na verdade, serve para ligar – no sentido Centro/Subúrbio - o Shopping Rio Mar ao Shopping do Recife, com um agravante:
Depois de aberto à circulação, constatou-se que por defeitos do projeto, não seria possível abrir ao tráfego a faixa leste ligando Subúrbio/Centro, desde que faltava o túnel para transpor a Avenida Antonio de Góes, nos mesmos moldes do que permitiu a travessia da Avenida Herculano Bandeira!.

E mais, conforme entrevista do nosso atual Prefeito admitiu-se que para correção do projeto e sua complementação ainda serão necessários investimentos na ordem de cem milhões de reais ! Será que ninguém será responsabilizado pelo erro que resultou na impossibilidade de sua utilização imediata ? Como resultado, temos hoje o surrealismo de uma via urbana que tem ida mas não tem volta, para total descrédito dos seus projetistas !

Porém, como não existe nada de tão ruim que não possa piorar, a famosa Via  é absolutamente VEDADA ao transporte coletivo, uma vez que não existem estações de embarque  e desembarque ao logo de todo seu percurso, a não ser que as pessoas pulassem no mangue e saíssem nadando e vice-versa. É ou não a lógica perversa de favorecimento do transporte individual em detrimento do transporte coletivo ?

E tem mais – pasmem – não existem ciclovias, nem passarelas para PEDESTRES ao longo da tal Via Mangue ou, pelo menos, uma calçada protegida para os pedestres aproveitarem o seu traçado e encurtarem o seu caminho. O jeito é caminhar na Via atropelando os carros ou sendo atropelados por eles. A conclusão é simples: Os pedestres e o transporte coletivo foram totalmente desconsiderados no projeto e na implantação da famosa Via Mangue. É ou não, mais uma COISA DE POBRE, sem qualquer explicação lógica ?


terça-feira, 20 de janeiro de 2015

MAIS HISTÓRIAS DE SEBASTIÃO MOURA


Como falei anteriormente, João Borrego, compadre e amigo de Sebastião, era o personagem predileto para a criação de suas histórias. Aí vão mais duas que provam bem a prodigiosa capacidade criativa dele:

1.    CARRO NOVO DE JOÃO BORREGO

O compadre João Borrego durante muitos anos usou um carro Ford 29, que dirigia razoavelmente e o mantinha sempre “apontado” para o seu serviço. O Fordeco lhe servia bem, atendia com perfeição suas necessidades de deslocamento para a Fazenda, São Bento do Una e Garanhuns. Por mais que insistissem ele não admitia trocá-lo pelas modernidades dos novos carros que estavam surgindo.

Depois da 2ª. Guerra Mundial, surgiram os primeiros carros de capota de aço, modernos, cheios de inovações e facilidades que, de início, não seduziram o seu espírito conservador. A sua resistência terminou quando um dia, diante da insistência de amigos e vencido pela curiosidade, procurou uma loja de automóveis para melhor examinar a novidade.

Instado pelo vendedor, sentou no carro (uma coupê Ford azul 1947 que usou durante muito tempo e lembro ainda) para verificar o conforto, a facilidade de operação e, sobretudo, a segurança. Enquanto isso, o vendedor na ânsia de vender-lhe o carro, não parava de exaltar as suas maravilhas, os acolchoados confortáveis, a segurança assegurada pelas capotas, o pouco ruído do motor, a facilidade da mudança das marchas, enfim tudo o que as novas tecnologias aperfeiçoaram.

Pela insistência do vendedor para que Seu João colocasse em funcionamento o carro para experimentá-lo, ele procurou o comando do motor de partida, acostumado que era com o seu acionamento em um pequeno pedal junto ao acelerador do seu Ford 29 e, como é natural, não o encontrando reclamou.

O vendedor mostrou-lhe então uma das facilidades mais notáveis do carro novo e que hoje, como todos sabem, é acionada na própria chave do veículo.

”Seu João, isso é um carro moderno, feito para sua comodidade. A partida é dada por esse botãozinho aqui no tabeliê do carro. Veja como é mais simples”.

Seu João retrucou na hora:

“Mais simples o que, moço ! Americano só faz coisa pra complicar a vida da gente.”

Ao mesmo tempo em que falava, com um esforço enorme LEVANTOU A PERNA COM A AJUDA DAS DUAS MÃOS PARA “PISAR” E ACIONAR O BOTÃOZINHO DO TABELIÊ !


2.    A  PANE  DO  CARRO  NOVO

João Borrego terminou vencido pelas razões apresentadas e     comprou um carro novo. Lembro dele ainda. Uma coupê Ford novinha, modelo 1947 de cor azul escura, que usou durante muitos anos e ele terminou acostumando com a novidade.
Um belo dia, voltando da feira de São Bento, o carro deu uma pane e como não entendia nada do novo carro, o jeito foi, pacientemente, esperar passar alguém que pudesse socorrê-lo. Enquanto aguardava o presumível socorro, teve necessidade de urinar, dirigiu-se ao matinho da beira da estrada e serviu-se, esquecendo, entretanto, a braguilha aberta.

Como era dia de feira e o movimento da estrada era grande, não demorou a aparecer um caminhão de feira cheio de mercadorias e gente sentada em cima, ali compreendendo mulheres e crianças e, providencialmente, o motorista conhecendo seu João, tranquilizou-o logo encostando o caminhão no acostamento e desceu para ajudá-lo.  
Abriu o capô do carro, debruçou-se sobre o motor, e começou a inspecionar distribuidor, carburador, velas, bobina e demais componentes buscando o provável defeito enquanto Seu João do outro lado do carro aguardava o diagnóstico. O motorista enquanto procedia a sua vistoria, olhando para defronte percebeu o descuido de seu João e avisa em voz baixa: “Seu João, a braguilha está aberta, Seu João!”

Ele retruca na hora, sem baixar o tom de voz: “E ONDE DIABO É A BRAGUILHA DESSA PESTE QUE EU NÃO SEI !”


domingo, 18 de janeiro de 2015

AINDA COISAS DE VELHO


O primeiro texto que divulguei sobre as coisas de antigamente foi uma provocação às saudades enrustidas dos queridos amigos, a ponto de despertar outras lindas recordações dos velhos tempos.

Minha cara Norma Andrade referiu o cuscuz feito com o milho ralado por seu avô. Tinha que ser muito bom, Norma, pois era ralado na hora e o milho era chamado de “milho zarolho”, denominação dada porque o milho ainda não estava seco de tudo. Isso fazia com que o cuscuz resultante tivesse maior aroma e melhor sabor, impossível de obter com os pacotes de fubá empacotados e estocados por meses nas prateleiras dos supermercados.

O amigo e parente Chico Gueiros evoca as viagens de trem que, à época, se constituíam como acontecimentos sociais da maior importância e dava um certo relevo e orgulho a quem tinha oportunidade de fazê-las, pois não eram frequentes. Grande parte dos viajantes, quando em família, optavam em levar comida pronta para consumir durante a viagem que era prolongada e durava quase todo o dia e os demais utilizavam um vagão-refeitório, onde não faltava uma razoável comida e os líquidos para acompanhá-la.

Era um passeio rotineiro da cidade assistir as partidas e chegadas do trem. As constantes partidas de quem viajava por dever de trabalho, não causavam mais emoção mas, ao contrário, as viagens excepcionais eram acompanhadas pelas famílias com despedidas, lenço branco acenando, e familiares chorando como se estivessem partindo para o desconhecido e sem perspectivas de retorno! Da mesma forma o sentimento alegre demonstrado nas chegadas.

Meu avô, Ernesto Dourado, foi Chefe da Estação da Great Western e essa patente era reconhecida como importante na escala social da cidade tanto que, até morrer, foi chamado de “Chefe” por muitos  contemporâneos seus.   

Os carregadores de bagagem faziam uma instituição reconhecida como importante e tinham freguesia certa para apanhar e levar as bagagens nas residências que os tornavam muito conhecidos da população. Além dos referidos nos comentários, lembro ainda “João do Ovo” que puxava um carro grande e forte e fazia toda a sorte de transporte imitando o barulho dos carros.

O “Mudo”, carregador, viveu durante longos anos em Garanhuns, sem que ninguém soubesse o seu nome, origem e pouso certo. No fim da vida, graças à intervenção caridosa de Antonio Vaz (olha aí seu avô, Toinho Coelho) foi identificado e encaminhado a um asilo em Bom Conselho, onde morreu.

Os trens foram desde 1877, quando aqui, chegaram, foi o único meio de transporte para a Capital, escalando em dezenas de estações intermediárias. Eram também responsáveis pela movimentação de comboios carregando a enorme produção de café, cerais, algodão que existia em Garanhuns

A linha férrea foi, durante muitos anos, o único meio de locomoção  para a Capital até que surgiram os primeiros ônibus regulares, chamados de “sopas” de propriedade de João Tude de Melo, até então modesto proprietário de oficina, mas que teve a visão de pioneiro pelo transporte automotivo em nossa região e tornou-se  um grande empresário do setor. Só para registro da minha memória mais antiga, lembro que, muito garoto ainda, conduzi as alianças do casamento de João Tude e Carmem, filha de seu Aprígio.

E as águas das grutas de Garanhuns, formadas pelas sete colinas, como Vila Maria, São Vicente, Pau Pombo, Pau Amarelo, Serra Branca, de excelente qualidade, hoje em sua maioria poluídas e destruídas pela incúria e desídia humana. Eram distribuídas de porta a porta por carroças e lombo de burros, em latas e despejadas diretamente no potes obrigatórios existentes nas cozinhas das casas.

 

 

 

sábado, 17 de janeiro de 2015

A LÓGICA PERVERSA DA ARBORIZAÇÃO DAS CIDADES


Frequentemente nos releases oficiais, nas entrevistas, nos            debates sobre preservação do meio-ambiente, nas veementes reivindicações dos ecologistas, nos anunciados programas do Poder Público em todas as esferas, surge sempre a notícia de que serão plantadas milhares de árvores para “enverdecer” as cidades e torná-las mais habitáveis.

Para seguir a regra, a Prefeitura do Recife acaba de anunciar um programa destinado a plantar 100.000 mudas até o fim do ano de 1916  e de repente, percebe-se que realmente estarão sendo plantadas em quantidade razoável que, certamente, contribuirão para voltar o frescor, amenizar as temperaturas elevadas, reduzir a evaporação e preservar as fontes dágua tão importantes para a vida humana. Adiantam, ainda, que serão plantadas mudas de nada menos de 57 espécies de árvores meramente ornamentais, todas elas frondosas e belas e nada a censurá-las.
Entretanto, como é importante para alimentar o contraditório, imaginemos que ao invés das espécies citadas, tivéssemos 100.000 mudas de árvores FRUTÍFERAS como jambeiros, mangueiras, sapotizeiros, frutas-pão, - igualmente frondosas e belas – mas produzindo milhares de toneladas de alimentos para a população, A CUSTO ZERO, na medida em que essa escolha não representaria qualquer aumento de dispêndio para o programa de arborização.

Tomemos como exemplo a maravilhosa fruta-pão: as publicações especializadas referem que um espécime adulto, mesmo sem maiores tratos culturais, produz por ano cerca de 320 quilos de frutos. Uma simples conta aritmética demonstra que teríamos anualmente nada menos que 32.000.000 (trinta e dois milhões) de quilos de alimentos saborosos e de alto valor nutritivo para a população. Antes que os técnicos me contestem, refiro que isso é só um exemplo, pois todo mundo sabe que o sistema radicular da fruta-pão não permite o seu plantio em calçadas.
Do mesmo modo imaginem o jambeiro que, além dos alimentos fornecidos e altamente produtiva, é uma árvore belíssima de formato conífero - desde que não depredado por podas desastrosas - e forma um lindo tapete de cor bonina à cada floração.

Porém, por nunca explicadas razões e não entendo porque, existe um impiedoso preconceito disseminado na sociedade contra a utilização de árvores frutíferas na arborização das cidades e que tomou conta também dos responsáveis pela coisa pública. Sem qualquer argumento razoável, recusam-se cultivar plantas que forneceriam alimentos saudáveis a toda população, a custo zero, desde que o custeio de mudas frutíferas não se altera em relação às simplesmente ornamentais.
E o preconceito é tanto que em recente proposta da Prefeitura, constante de um alentado “Manual de Arborização” com 56 páginas e definição de 57 (!) espécies meramente ornamentais a serem plantadas, faz-se referência apenas em um único, triste e solitário parágrafo, sem quaisquer explicações que:
“O USO DE ESPÉCIES DE ÁRVORES FRUTÍFERAS, COM FRUTOS COMESTÍVEIS PELO HOMEM, DEVE SER OBJETO DE PROJETO ESPECÍFICO.”

Vejam que perversidade discriminatória! Por exclusão, se forem “frutos comestíveis” pelos animais estão aprovados pelo manual em causa. As árvores “com frutos comestíveis pelo homem” não (!), e remete-as à prescrição para as calendas gregas. É possível que de 2017 em diante se permita plantar um pezinho de pitomba!
Se duas dezenas de técnicos conseguiram uma linhagem de 57 espécies ornamentais sem as inconvenientes dificuldades que autorizem o seu plantio, por que não se atribuiu aos mesmos técnicos a prioridade para as espécies frutíferas que, além da sombra, do verdor, da proteção ambiental ainda forneceria alimentos para a população?. E nem podem alegar que não existam, uma vez que falam em “projeto específico” para o futuro.

Mesmo assim, aleluia !, por não cometerem o mesmo erro de administrações passadas quando fizeram o plantio, em grande escala, das infames castanholas que estão por aí a arrebentar as calçadas, dando trabalho à limpeza pública e produzindo frutos horríveis até para os animais.

COISAS DE VELHO


Não gosto de ficar falando de coisas de antigamente, como se tudo fosse excelente e antítese da modernidade que sobreveio. Não é bem assim. Parece inconformação com a velhice; saudade do que se perdeu; carência do que não se pode mais; lamentação pelo que se tornou impossível! Mas, ainda vale muito a evocação das coisas boas que se perderam diante do avanço da tecnologia.

Quantos ainda lembram o tempo em que não existia geladeiras, freezers, câmaras frigoríficas, produtos químicos conservantes exceto o sal e não tínhamos, sequer, o fornecimento de energia regular o que somente aconteceu  aqui no Nordeste com o advento de Paulo Afonso. Mas o povo detinha, com extrema perfeição, a TECNOLOGIA DE CONSERVAÇÃO DE ALIMENTOS. Além da falta de energia elétrica, ainda não chegara a nós o gás engarrafado, que os contemporâneos não são capazes de imaginar o avanço e a comodidade que o gás proporcionou às donas de casa.

Pensem que as únicas fontes disponíveis eram o carvão e a lenha e façam ideia do sacrifício de fazer o fogo bem cedinho para preparar o café da manhã. As pessoas choravam com a fumaça desprendida pela lenha molhada pelas madrugadas frias de Garanhuns e recorriam, até, ao querosene e bolas de papel para conseguir atear o fogo. Lembro muito que minha mãe, logo de véspera, preparava umas lasquinhas de lenha e gravetos e as colocava no forno do fogão para obtê-las bem sequinhas e conseguir “fazer o fogo” na manhã seguinte.

Os mais antigos e “intermediários” devem lembrar que em todas as casas, em cima do fogão, existia sempre um fio de arame atravessado em que se colocavam carnes, linguiças caseiras, toucinho, tranças de alho e cebola para receberem uma defumação natural desprendida do fogo.

Toda vez que vou ao mercado, atualmente, me divirto muito quando vejo e compro defumados com preço acrescido pela incorporação do processo “tecnológico” e lembro, sempre com saudade, das preparações que se faziam em nossa casa.

Da mesma forma o preparo dos doces e das conservas de legumes (picles) que eram produzidas em casa. Aproveitava-se a época das safras respectivas para a compra de produtos em caixas e em centos (compra em grosso) a preço bem baratinho de tomate, goiaba, banana (ah! as compotas de rodelinhas), araçá (ah! as geleias de araçá de D. Dulce), figo (ah! as compotas de figo de D. Carminha disputadas por toda família), couve-flor, cenoura, chuchu, cebolinha, etc. Arrecadava-se de imediato o indispensável tacho de cobre, uma grande colher de pau para mexer e as vasilhas para armazenagem.

Entrava em cena a fabricação caseira e, para guardar os doces e picles maravilhosos, um grande número de enormes botijões de vidro com tampa e vedação de uma arruela de borracha que era pressionada por uma mola articulada na boca dos botijões. Depois de esterilizados e enchidos com os acepipes, os botijões eram submetidos a um banho-maria que garantia a sua conservação por um longo tempo. Adiante-se que comprar doces em mercearias era indício de ausência de família ou de família imprevidente.

Imaginaram, agora, a razão porque a maioria das casas tinham dispensa para estocagem dos produtos conservados?

Simultaneamente, algumas rudimentares tecnologias foram abandonadas, não porque não funcionassem a contento, muito pelo contrário eram de grande eficiência, mas pela inação, comodidade e sobretudo pelo vezo inconsciente de transferir tudo para o Poder Público, como se fosse o Grande Pai Branco.

Gerações e mais gerações do semi-árido assistem e foram criadas sob a inclemência das terríveis secas, como se fossem eventuais e não uma inconstante inclemência do tempo. Não entendo e me revolta, quando vejo notícias de estudos, seminários, congressos, debates, e programas sobre os modos de convivência com a seca, como se fosse um problema novo e nunca discutido.

Quando não existiam caminhões-pipa até para abastecer cidades inteiras, como ocorre hoje a encargo do Exército e das empresas de abastecimento  no Nordeste inteiro, nem financiamento e doações de cisternas na zona rural, as casas urbanas que se prezavam e eram a grande maioria delas, tinham CISTERNAS E CALHAS PARA COLETA DE ÁGUA DA CHUVA que garantiam sobretudo água para beber, uma vez que a água da chuva é pura e só exige limpeza periódica dos telhados e dos reservatórios.

Hoje a população prefere a água de botijões que transformou-se em grande negócio e, em cidades de porte médio com carência de abastecimento, usam até para tomar banho. A água distribuída nas cidades, que em todos os países desenvolvidos do mundo é utilizada com qualidade para beber, em nossas cidades é usada para lavar calçada e pisos.

Numa cidade do porte do Recife, por exemplo, com elevados índices de pluviosidade, por que se permite que toda água de chuva seja desperdiçada e remetida diretamente para os dutos que terminam despejando-as nos rios ou diretamente no mar ?

Por que não existe uma legislação que obrigue os prédios/casas/construções com panos de telhado significativos a fazerem a coleta das águas pluviais e recolhê-las em cisternas, para economizar a água da distribuidora ?

Lembrança boa das casas com QUINTAIS QUE NÃO EXISTEM MAIS, em que não faltavam:

A) os galinheiros que garantiam as gordas e valorizadas galinhas e seus ovos, hoje chamadas “de capoeira” e disputadas a preço de ouro no mercado, sem falar que garantiam os famosos “pirão de parida” dieta infalível às gestantes em rigoroso resguardo;

B) por efeito colateral dos galinheiros, as tomates redondas, vermelhas e pequeninhas que hoje são chamadas de tomate-cereja e vendidas nos supermercados a preços extorsivos e consumidas pelos mais famosos mestres da culinária do mundo inteiro;

C) as latadas de chuchu, limão, maracujá (garantia o consumo de sucos) e que só eram colhidos na hora do preparo;

D) uma touceirinha de cidreira e capim santo para garantir o tratamento de febre e resfriados, dispensando remédios de farmácia;
E) aqui e ali, dependendo do espaço do quintal, um pezinho de laranja, ou de manga, ou de abacate, ou de jabuticaba (ah! meu Deus, estão desaparecendo) e eventualmente

E) uma casinha de pombos.

Juro que não é COISA DE VELHO, mas evocação e saudade.