sábado, 15 de novembro de 2014

MANOEL DAS ESTRELAS

  
Ouvimos essa história do meu pai, acerca de um louco maravilhoso que existia na sua infância em Garanhuns. No início do século XX, essa figura subia a Serra do Magano todas as sextas-feiras à noite (véspera da feira), carregando um enorme balaio daqueles muito usados na época em que se vendia pão e se entregava de porta em porta. Como o pão é muito leve e volumoso, exigia-se um balaio de dimensões enormes para conter o volume de pão necessário ao atendimento e distribuição a domicílio. O inusitado é que com um desses balaios, MANOEL DAS ESTRELAS (assim era chamado) subia a Serra e passava a noite inteira COLHENDO ESTRELAS até encher o balaio, segundo dizia. Quando amanhecia o sábado, dia da feira, descia a serra com o balaio na cabeça CHEIO DE ESTRELAS e ia vendê-las à sua costumeira freguesia que, acumpliciando-se ao seu sonho lindo, comprava toda sua colheita e garantia a sustentação do seu delírio poético, ingênuo e garanto: feliz.

Vejam como, mais de cem anos depois, observamos o lá distante comportamento de uma sociedade simples, despojada das sofisticadas novidades tecnológicas; com conversas na calçada ao invés dos rádios e televisões; saudáveis saraus nas residências com apresentação dos músicos, cantores, poetas e declamadores  em notável apuro de suas qualidades artísticas;  do convívio de famílias que se apresentavam em visitas protocolares quando chegavam à uma rua para residir e, do mesmo modo, visitas formais de despedida quando se mudavam; a quase obrigatória liturgia de pedir na casa vizinha uma xícara de açúcar ou uma colher de pó de café emprestados para atender uma falta ocasional; como uma vez me ensinou meu querido amigo e vizinho Estevão, já falecido: “vizinho que não incomoda não é vizinho!”; dos papos habituais mantidos nas lojas de então por grupos de amigos, sem contar com os jogos de gamão de Minervino, na entrada de sua loja “Veneza Americana”; o ritual cumprido à exaustão pela figura habitual de D. Nazinha percorrendo o dia inteiro a loja de Ferreira Costa, como hoje faz Ciro na loja da Imbiribeira (fiquei um dia de parte observando e lembrando os antigos tempos da loja secular); o sucesso de um rádio à bateria, no início da década de 40, instalado por Seu Matos (Arcelino Matos), na entrada de sua loja “A Atractiva” para divulgação ansiosa das notícias da guerra então em curso; as improvisações engenhosas dos nosso grêmios teatrais amadores; as tradicionais festas promovidas pelos três colégios, revelando valores artísticos; enfim, todos se conhecendo e se tratando pelos pré-nomes e até pelos apelidos.

Na sua singeleza e simplicidade, era uma sociedade suficientemente romântica capaz de sustentar sonhos coletivos e alimentar os delírios de um louco maravilhoso que almejava, e conseguia, colher e vender estrelas em nossa amada Garanhuns.  

7 comentários:

  1. Lindo Ivan Rodrigues....precisamos colher estrelas , sempre !

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  2. Bela história e narrativa! Parabéns.

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  3. Com a bela história de Manoel das Estrelas Dr. Ivan Rodrigues mostra o quanto a vida pode ser gostosa de viver a partir das coisas mais singelas.

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  4. Paulo Helder Medeiros18 de novembro de 2014 07:18

    Caro Ivan, Impressionou-me, em sua belíssima narrativa, como um “maluco” tem tanto a nos ensinar. Precisamos colher estrelas, sempre, para tornar a vida mais leve.

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  5. Histórias dignas de um belo livro! Parabéns!

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  6. Que história triste mas linda...

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  7. Ivan Rodrigues, ou, simplesmente - Ivanzinho (Não apenas pelo tamanho, mas, sobretudo, pela grandeza da cordialidade em pessoa que carrega vida a fora), meu agora vizinho de sala no Centro de Convenções, aqui, em Olinda,

    Poesia pura!, sua crônica.
    Que Maravilha!
    Garanhuns acaba de ganhar mais um grande cronista, já conhecido como excelente contador de histórias nas boas conversas, pelas pessoas que tem o prazer de conhecê-lo, e ouvi-lo, ao longo de sua atividade na política pernambucana.
    A sua pena vem se juntar a outros nomes de Garanhuns, como Luiz Jardim, Ronildo Maia Leite, Jodeval Duarte...
    A loucura poética de Manoel das Estrelas ilumina, até, hoje, as noites/madrugadas de Garanhuns.
    Talvez, por isso, eu prefira, sempre que vou a Garanhuns, chegar à Cidade das Sete Colinas à noite, sem nem desconfiar que o seu céu noturno ainda é iluminado por aquelas mesmas estrelas cultivadas por Manoel das Estrelas no século passado. Foi Manoel das Estrelas quem ajudou a deixar tão bonitas as noites e madrugadas de Garanhuns.
    Parabéns pelo seu Blog!
    Ruy Sarinho/Olinda


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