sábado, 1 de abril de 2017

PERIPÉCIAS DA CARNE E AFINS

Como sempre acontece na minha vida, as reminiscências são constantes e, a propósito dessa tempestade armada em torno da carne, relembrei alguns casos pertinentes que vivi e neles tive importante protagonismo.

Na década de 1980, à cerca de 30 anos, fui Presidente da CILPE, empresa de produção de derivados do leite de forte atuação nos meios de produção do Estado. Ali na Rua Dr. José Mariano, na Ilha do Leite, funcionava a usina de pasteurização do leite em que pontificavam alguns dos mais reputados técnicos brasileiros de laticínios, tais como Antônio Coelho, Salomão Kirzner, Clarisvaldo Germano, Chico Carneiro da Cunha e outros não menos notáveis.
Na época, já funcionava e muito bem o Serviço de Inspeção Federal (SIF), subordinado como hoje ao Ministério da Agricultura e que, para tanto, mantinha um laboratório para inspeção dos produtos dentro das instalações da própria CILPE.

Registro, como reconhecimento, que o SIF mantinha um corpo técnico de alto nível científico, sério, competente e diligente e, por vezes, exigente a ponto de incomodar nosso pessoal. Tal circunstância era sempre motivo de preocupação no sentido de manter um bom relacionamento entre o SIF e o nosso pessoal. Faço essa referência de modo pessoal, pois algumas peças isoladas de qualquer órgão não contaminam a credibilidade da instituição, como ora procura-se insinuar contra os órgãos de controle de qualidade de produtos alimentícios.
Conheci, a partir daí, o rigor da fiscalização de produtos alimentícios de origem animal e as exigências previstas pelas empresas multinacionais quando do recebimento dos laticínios fornecidos, inclusive leite-em-pó. Entendi que nenhuma corrupção vence os instrumentos de fiscalização e auditoria de empresas importadoras (de qualquer origem) que chegam ao requinte de enviar equipes de auditoria especializada para vistoria nos próprios estabelecimentos produtores de origem.

Um dia ocorreu um incidente que quase joga fora essa boa relação. Já naquela ocasião o trânsito do cais José Mariano era terrível e a CILPE possuía outra via de acesso através da Rua da Glória. Para facilitar a mobilidade dos veículos de serviço, desde as dezenas de caminhões-tanque que traziam o chamado leite cru coletado e outros tantos caminhões de distribuição de leite que durante todo o dia faziam a distribuição do leite envazado por todos os bairros da cidade e algumas da região metropolitana (bons tempos em que dispúnhamos de produtos mais saudáveis), determinei que a entrada da José Mariano seria reservada, exclusivamente, aos veículos de transporte do produto. Quanto aos demais, em sua maioria veículos pequenos e de transporte pessoal inclusive do Presidente, se obrigariam a usar a Rua da Glória.   
Façam ideia do rolo criado por essa determinação. O pessoal do laboratório do DIPOA reagiu a determinação, entendendo que não poderiam obrigar-se – como todos os demais – a cumprir a determinação. No dia seguinte, ao chegar cedinho na usina  encontrei a entrada da José Mariano bloqueada pelos automóveis dos servidores do laboratório que se sentiram restringidos pela determinação da presidência da CILPE.

Tomei a providência que me cabia: telefonei para o Delegado do Ministério da Agricultura de então, nosso velho amigo Simões – já falecido – dei-lhe conhecimento do ocorrido e comuniquei que se o seu pessoal não retirasse o bloqueio praticado no acesso da nossa empresa dentro de 15 minutos, eu comandaria pessoalmente os nossos peões para arrastar os veículos do seu pessoal, contanto que a direção da CILPE não fosse desrespeitada em sua determinação, já que o poder de fiscalização do órgão não alcançava medidas internas administrativas. E mandei chamar o chefe do laboratório para comunicar-lhe minha decisão.
A conversa não foi tão difícil como esperava. O Chefe do Laboratório, profissional sério mas equivocado, cometeu o descuido de alegar em sua primeira justificação que “Nós somos autoridade federal e temos direito de entrar por qualquer dependência da empresa (sic)”. Aproveitei a oportunidade e, usando este meu jeito sempre jocoso e bem-humorado, retruquei-lhe na hora: “Por isso não, amigo, eu também sou autoridade na condição de neto de soldado de polícia e nunca invoquei essa autoridade pra ninguém (sic)” e confirmei para ele o que já decidira e comunicado a seu chefe. Felizmente, percebeu que pisava em areia movediça, o bom senso funcionou e ele mandou retirar os carros da entrada!

Doutra feita, como Superintendente Administrativo da COSINOR que coordenava o Setor Jurídico da empresa, tivemos que enfrentar uma questão jurídica grave, promovida por uma multi-nacional que, recusando liminarmente o pagamento da encomenda que entregamos para as Centrais Elétricas de Rondônia, intentou uma ação de indenização, em que alegava defeitos de fabricação em seis tanques fixos enormes para depósito de líquidos, louvado em laudo do IPT de São Paulo, tido como o maior instituto tecnológico do país.
Para fazer essa defesa, tive que aliar-me ao bom corpo técnico da COSINOR e aprender tudo que existia em torno de normas técnicas na regulação brasileira e mundial sobre construção, fabricação de produtos, resistência de materiais, testes de componentes, insumos e operação de equipamentos e as normas técnicas internacionais em vigência. Aprendi, desde logo, a extrema complexidade do assunto que circunda o comércio internacional, já que também exportávamos vergalhões para um bom número de países e as exigências eram igualmente rigorosíssimas.

Fomos bem sucedidos, mas para tanto contratamos um eminente professor paulista, destruidor de ícones, corajoso, que enfrentou a questão com extrema competência e conseguiu provar – técnica e juridicamente – que um teste inadequado de operação  promovido pelo IPT-São Paulo foi o verdadeiro responsável pela deformação dos tanques fabricados.
Ganhamos a questão de forma retumbante, às custas  de um laudo infeliz do maior instituto tecnológico da América Latina e sou muito orgulhoso disso.

Melhor, aprendi um pouco do requinte e conheci as entranhas do comércio internacional e, por essa razão, estranho a espetaculosidade montada pela PF, de muito barulho, pouco resultado e de efeito colateral terrível pelo dano que poderá causar a um setor produtivo que envolve 7,5% do total das exportações brasileiras.
É surrealismo puro, um provável dano causado pelo frigorífico de uma micro-empresa (EIRELI), na condição de um dos 21 apontados dentre cerca de 4.800 existentes no país, repercutindo no comércio internacional pela leviandade da PF. Não há como fugir  do lugar comum: Seria cômico, se não fosse trágico!

segunda-feira, 27 de março de 2017

A CARNE É MUITO FORTE. SÓ A PF NÃO ENTENDEU...

Essa “Operação Carne Fraca”, desencadeada pela Polícia Federal nos últimos dias, vem desencadeando notável repercussão no Governo Federal, na economia nacional e nos meios empresariais brasileiros, tamanho são os valores referidos, sem falar nos efeitos danosos provocados no comércio internacional de carnes, sobretudo por sua ressonância na posição exportadora brasileira.

A desastrada espetaculosidade do seu anúncio; a irresponsável indefinição dos responsáveis pelos ilícitos praticados; a ausente qualificação dos ilícitos referidos (não sabiam sequer que acido ascórbico é Vitamina C!); a aparente inadequação do papel dos agentes envolvidos (não se esclarecem os agentes e os ilícitos de cada um); do aparente isolamento do Ministério Público em seu acompanhamento, chama a atenção por algumas especificidades:
1.      – A matéria foi repercutida por rádio, televisão, imprensa falada e escrita, rede social, sem limites e sem identificação das fontes e o seu efeito perante o mercado internacional configura-se de complexa reparação;

2.      – Foi apresentada uma lista de empresas – 21 tidas como “investigadas”, sem qualquer definição da ilicitude praticada por cada uma. Na verdade, não são 21 empresas, são 21 frigoríficos de 21 empresas e no Brasil, existem 4.800 estabelecimentos desses!... Vai de grandes empresas de atuação no mercado internacional a simples “Eireli” (micro-empresa) de pequena cidade do interior do Paraná;

3.      – O Ministério da Agricultura já suspendeu a exportação dos produtos dos 21 estabelecimentos (note-se que a suspensão foi dirigida aos frigoríficos  citados e não às empresas em sua integridade) que estão submetidos à uma inspeção especial para apuração dos fatos;

4.      – Não há clareza quanto aos ilícitos praticados, não relaciona os dirigentes empresariais, nem os agentes públicos envolvidos e, muito menos, a responsabilidade de cada um;

5.      – Muito claro que o Ministério Público foi marginalizado na investigação e não teve qualquer participação que estabelecesse o necessário comedimento e equilíbrio nas apurações;

6.      – A ameaça de dano à exportação é preocupante, pois o setor representa 7,5% (sete e meio por cento) do nosso comércio exterior, com presença permanente em cerca de 150 países, ficando atrás apenas da soja e minério de ferro. Estimam os consultores que uma redução de 10% nas exportações do setor, representaria a perda de 420.000 postos de trabalho;

7.      – A operação (reconhecida como necessária !) se fosse corretamente divulgada, realçando a preocupação adequada dos órgãos oficiais de fiscalização brasileira, poderia ter sido um poderoso instrumento de fortalecimento do conceito do produto nacional perante um melindroso mercado internacional. Ao revés, com a leviandade como foi divulgada, denegriu a credibilidade de nossas exportações;

8.      – Não esqueçam que o mercado internacional de carnes (boi, porco e frango) envolve rigorosas exigências de qualidade que vão da natureza sanitária, embalagens, conservação e até às culturais. Experimentem vender carne de porco aos árabes... Para que se tenha ideia, a luta para o reconhecimento da extinção da febre aftosa no território nacional que permitisse a liberação de nossos produtos para exportação, vem do século passado e exige um esquema de vigilância permanente;

9.      – Atualmente, uma das mega-empresas brasileiras inseriu-se no mercado produtor norte-americano através da compra de uma das maiores empresas americanas manipuladoras de carne e hoje lidera o mercado daquele país;

10.  – Quem trabalha ou já trabalhou no comércio internacional, sabe das rigorosas exigências que todos os países impõem na regulação de importação, ao estabelecer suas normas técnicas de classificação, exigência de performances, testes físico-químicos, sendo de relevar que cada país tem as suas próprias normas técnicas que os exportadores têm que cumprir sob pena de não permitirem sequer o seu descarrego nos portos de destinos;

11.  – É de extrema ignorância imaginar que as empresas importadoras estrangeiras recebam QUALQUER produto, sem procederem os mais severos testes de qualidade dos produtos adquiridos que certifiquem as especificações das normas técnicas de uma linguiça, um vergalhão de aço, um farelo de soja, um punhado de minério ou um avião da Embraer!

12.  – Essas descritas trampolinagens, fruto de procedimentos indecentes e das tenebrosas transações de alguns estabelecimentos frigoríficos com os fiscais de Inspeção dos produtos animais, nunca contornariam as exigências do mercado importador mundial.

Pelo jeito, só a Polícia Federal depois de trabalhar exaustivamente durante dois anos, envolvendo tarefas complicadas em 21 frigoríficos, em trabalho cansativo envolvendo mais de uma centena de agentes, lidando com matérias de alta indagação técnica e numa operação de alta relevância, na ânsia de mostrar serviço estragou o seu trabalho ao fazer uma divulgação apressada e de pouca consistência investigativa.  A leviandade foi tanta que desconheciam que ácido ascórbico é Vitamina “C” e uma inócua discussão sobre embalagens de produtos levou à uma interpretação ridícula de mistura de papelão com carne!
 
Contribuiu, apenas, para proporcionar um tremendo risco de prejuízo aos supremos interesses da Nação que permanece envolvida, atualmente, com sérios problemas econômicos. Que prossigam seu trabalho da forma correta, encaminhando suas conclusões aos órgãos julgadores na forma institucional, no sentido de responsabilizar e condenar os anunciados corruptos e corruptores. Na democracia é assim!
 
Ainda bem que a Carne é Muito Forte e ao que parece, tem suficiente estrutura e respeito para manter a credibilidade conquistada com muita luta durante muitos anos no mercado internacional, como bem demonstram algumas manifestações de alguns países importadores como a Coreia do Sul que levantou o embargo de carnes de frango; os Emirados Árabes, Egito, Arábia Saudita, Chile e a China (maior cliente de carne suína do mundo) mantêm o bloqueio apenas para os frigoríficos investigados (apenas 21 num universo de mais de 4.000); e o que pode remanescer com maior prejuízo é o estardalhaço de sua divulgação e a queda de consumo no mercado interno, em face do desabono geral dos produtos. A conferir!

 

      

 

 

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 20 de março de 2017

REFORMA DA PREVIDÊNCIA

Mesmo mantendo o sentimento da paixão nas coisas da política, não perco meu vezo cartesiano ao apreciar uma necessária lógica que deveria presidir os fatos que ocorrem atualmente em nosso ensandecido país.

Quando observo uma aguerrida e organizada ofensiva contra uma reforma da previdência, que está em curso nas ruas, nos centros de ensino, nas entidades sindicais e nas forças conservadoras (ou não é característica do conservadorismo a manutenção do status quo?), verifico que o movimento está acentuado por palavras de ordem, slogans, estribilhos e redundantes mensagens.

Desconfio que 90% da multidão ainda não leu, na íntegra, o projeto em questão e limita-se a repetir a linguagem comiciana e a sustentar algumas inverdades para assustar a imensidão de pobres aposentados, como fizeram na campanha de Dilma para assombrar os beneficiários da Bolsa Família, que resultou no maior estelionato eleitoral jamais praticado em terras brasileiras.!   

Não se discute, nem se debate nada. O projeto tramita no foro competente (Congresso Nacional) e pouquíssimos parlamentares (ainda bem!) estão propondo emendas e levantando questões pertinentes. O negócio é ser CONTRA e a massa manipulada manifesta-se ‘TOTALMENTE CONTRA A REFORMA PREVIDENCIÁRIA’.

A partir de uma campanha TOTALMENTE contra uma reforma, sem sequer admitir a possibilidade de discussão podemos tirar algumas conclusões inevitáveis, em total consonância com as mais elementares regras de um processo dialético:

1º - Os participantes deste MOVIMENTO, que combate TOTALMENTE essa reforma, estão PLENAMENTE satisfeitos e consideram JUSTO o Sistema Previdenciário Nacional vigente!

2º - O MOVIMENTO concorda e, sem divergências, considera equânime a existência concomitante de um Regime Geral da Previdência e um Regime Público da Previdência, com regras monstruosamente discrepantes, a ponto de alcançar no ano de 2015, uma média de pensão do primeiro (com 28 milhões de beneficiários) na ordem de apenas R$1.338,15 e (mil, trezentos e trinta e oito reais e quinze centavos) e, no segundo (com apenas 1,3 milhões de beneficiários), atingir o valor de R$8.419,18 (oito mil, quatrocentos e dezenove reais e dezoito centavos), ou seja, mais de seis vezes maior!...

3º - O MOVIMENTO aceita a desigualdade e tem como legítima que - na prática - essa divergência seja responsável pelo mesmo volume de despesa de ambos os regimes, mesmo ao considerar que o público-alvo do Regime Público representa apenas 4% (quatro por cento) da população beneficiada pelo Regime Geral! E que a imensa maioria das pensões do Regime Geral recebe apenas um mísero e infamante salário-mínimo de R$940,00 (novecentos e quarenta reais) e isso a partir de janeiro de 2017. Adianto, antes que coloquem dúvidas nos dados referidos, que a fonte de informação é o SEAFI

4º - Mesmo assim, o MOVIMENTO deve considerar justíssima essa média salarial do Regime Público, na ordem de nove mil reais, mas desafia-se que exista no Brasil inteiro um só professor do ensino médio – entre milhões de servidores públicos estaduais e municipais – recebendo uma pensão de aposentadoria de valor igual ou superior a essa. Essa média só é obtida graças a uma fantástica legião de afortunados marajás da República que constitue, hoje, uma pantagruélica e nunca satisfeita pequena burguesia que lidera esse Movimento.

5º – O MOVIMENTO está conformado e defende a manutenção de um Regime Geral que limita a contribuição e o benefício decorrente em apenas 10 (DEZ) vezes o salário-mínimo e ainda estabelece a redução do chamado “fator” ao assalariado comum, enquanto o Regime Público não tem limitações e garante o benefício integral, sem quaisquer reduções e ainda acrescido de diversos badulaques.

6º - O MOVIMENTO aplaude e defende a sustentação de pensões dos parlamentares, mesmo considerando que, em alguns casos, com contribuição de quatro anos de um único mandato, resultando disso que existem atualmente nada menos que 501 (quinhentos e um) Ex-Deputados recebendo pensão parlamentar. Tanto que nosso amigo e deputado pernambucano Cadoca já se apressou em apresentar uma emenda para garantir a manutenção desse benefício.

7º - O MOVIMENTO, em obstinação pouco inteligente, finge ignorar a importância da migração etária ocorrente no mundo inteiro, por força do aumento da expectativa de vida dos humanos que não concilia com o cálculo atuarial da previdência. O mundo inteiro alarmado com esse novo horizonte e rendido aos novos tempos, vem cuidando de aperfeiçoar os seus sistemas e apenas o Movimento entende que está tudo “ótimo no melhor dos mundos” em ridícula interpretação panglossiana. Lembram todos que há pouco tempo, o STF com razão aumentou a idade compulsória de aposentação para 75 anos ?

8º - O MOVIMENTO engana a população quando NÃO esclarece que somente no período de 2.000 a 2014, segundo o IBGE (quem quiser confira), a população brasileira ativa cresceu em média de 1,46% ao ano, enquanto a população idosa (acima de 60 anos) cresceu em média 3,48%, o que significa que a cada ano, a diferença entre a população ativa e a população idosa cresce mais de 2%;OU SEJA, a cada dia bem mais gente se aposentando em relação à gente contribuindo. Dá pra fechar a conta?. 

9º - O mundo inteiro – de todas as naturezas e culturas ideológicas - corre contra o tempo e todas as economias buscam ajustar suas medidas e providências para reequilíbrio dos seus sistemas atuariais que assegurem sua higidez econômica e o MOVIMENTO – com seu conservadorismo medieval – trabalha com regras , conceitos e tiradas demagógicas, ancoradas na revolução industrial do Século XIX e esquece que estamos em pleno Século XXI, atropelado pela revolução tecnológica. Corram todos e muito, pois como dizia Stanislaw Ponte Preta: “Quem se atrasar e não alcançar as caravelas de Cabral de volta, vai ter que usar tanga e virar índio”. 

Para não ficar enfadonho, por hoje é só, mas ainda voltaremos a outras facetas do assunto.

segunda-feira, 13 de março de 2017

OS DONOS DO MUNDO


 

Devemos enaltecer as ações exitosas dos órgãos públicos, com a mesma ênfase com que os criticamos, por vezes, por suas atividades mal sucedidas. Os jornais dão notícia de uma pronta atividade do PROCON de Pernambuco, interferindo no comportamento abusivo praticado pelos bancos em nosso Estado, ao manter fechadas suas agências assaltadas em prejuízo das atividades econômicas e da comodidade da sua população. 

Lembrei-me, a propósito, de que em junho de 2015, quando correu a notícia de que o Banco do Brasil – Agência do Recife estaria vendendo dólares falsos, publiquei um texto em que dizia:

“Banco do Brasil vende dólares falsos. Pai e filha estão retidos nos Estados Unidos após tentarem depositar em agência americana dinheiro comprado no banco”

Como é mesmo ?  O Banco oficial de um país civilizado vendendo dinheiro falso ?  O nosso Banco do Brasil S/A, instituição bancária respeitável e secular, aceitando dinheiro falso e servindo de mula para falsários ? Operação somente desmascarada nos Estados Unidos (que vergonha!) mediante a intervenção do FBI que meteu algemas no infeliz casal portador e apreendeu o dinheiro falso. O vexame exigiu a intervenção diplomática da Embaixada Brasileira.

Dias depois, com a divulgação da existência de 6 (seis) casos já constatados na agência do Banco do Brasil em Recife de dólares falsos recebidos e passados adiante (?) é que, APÓS SER AUTUADO PELO PROCON-PERNAMBUCO de acordo com a legislação de Defesa do Consumidor, surgiu uma nota da agência do Recife, suspendendo as operações de câmbio com a moeda norte-americana por 30 dias, que revela um primor de desavisada ingenuidade e um desvio ostensivo do verdadeiro foco da questão.

Comecemos pela origem da nota que, em se tratando de questão grave e de repercussão internacional, deveria ser iniciativa da Direção Geral do BB e não de uma simples Superintendência Regional. Confessa, ainda, que tomou a providência de “suspender o serviço de câmbio em todas as agências do Estado por 30 dias” o que quer dizer: a providência não foi iniciativa própria e SOMENTE FOI TOMADA ATENDENDO À AUTUAÇÃO DO PROCON-PERNAMBUCO que tem jurisdição e competência restrita apenas a este Estado. Vamos pelo menos falar com um mínimo de sinceridade. Não fosse a atuação vigilante das autoridades estaduais, através da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos, seguramente continuaria a enxurrada de moeda falsa circulando em seus escaninhos, sem qualquer providência.”

Já se vê, portanto, que a providência adotada agora pelo PROCON de PERNAMBUCO no que diz respeito às multas aplicadas pelo fechamento de algumas agências de bancos no Interior (mais precisamente Banco do Brasil, Bradesco, Caixa Econômica, Itaú, e Santander) tem total procedência e não deve ser encarada com indiferença, uma vez que – conforme ocorreu com o episódio da venda de dólares falsos pelo Banco do Brasil – não fosse a sua previdente atuação, e o Imprevidente Banco teria continuado, impunemente e sem pudor, a distribuição de dólares falsos em todo o Brasil.

O Sistema Bancário Brasileiro, público e privado, desfruta dos maiores lucros já auferidos por qualquer atividade econômica do país e, sem quaisquer satisfações à população e às instituições como se vivessem em outras galáxias, simplesmente desativam suas agências no interior do Estado deixando seus clientes ao desamparo e a circulação econômico-financeiro de todo interior desativado.

Tudo sob a cavilosa alegação da insegurança provocada pelas  explosões e dos saques às suas agências. Imaginem se todas as atividades produtivas de qualquer natureza no país resolvessem encerrar suas atividades sob o mesmo pretexto..

Claro, que o Poder Público tem responsabilidades com a segurança pública da população de modo geral e não de forma seletiva, mas a atividade bancária tem lucros, recursos, estrutura e condições capazes de prover a sua própria segurança e, na sua inarredável condição de prestadores de serviços públicos, não podem eximir-se dessa obrigação!

Cobrar obrigações do Poder Público para garantir um sistema de segurança privado e assegurar o funcionamento de todas as agências Bancárias do País: É PURA CHANTAGEM QUE O SISTEMA BANCÁRIO ESTÁ PRATICANDO AO FUGIR DE SUAS RESPONSABILIDADES SOCIAIS E ECONÔMICAS, E FORÇAR O PODER PÚBLICO A SUBSTITUÍ-LO NA SUA PRÓPRIA SEGURANÇA.

Servem mal, cobram os juros mais escorchantes do Mundo, conquistam lucros fantásticos que envergonhariam o mais irredutível agiota e ainda querem posar de “coitadinhos indefesos

Aplausos para o PROCON-Pernambuco por sua pronta e oportuna atuação para mostrar (como mostrou ao Banco do Brasil no caso da venda de dinheiro falso) que temos um órgão vigilante na defesa da população de Pernambuco. De forma lamentável, não temos como dizer o mesmo em relação aos outros Estados, ao Banco Central do Brasil e, muito menos, ao Governo Federal.

domingo, 29 de janeiro de 2017

DAMIÃO - O QUEIJEIRO FILÓSOFO


Nos tempos de antigamente, a maior parte das fazendas de gado -  à falta das grandes usinas de beneficiamento de leite e fabricação de leite em pó que lhes garantissem mercado regular  – mantinham em suas dependências uma fabriqueta de queijo que se encarregava da comercialização de sua produção leiteira e os obrigava à manutenção de um mestre-queijeiro permanente, para aprimoramento da qualidade dos seus produtos.

Assim era na Una,na ribeira do Rio Una de Philadelfo (Lôla) Branco, que frequentávamos habitualmente por conta de nossa relação de parentesco e bem-querer. Foi lá que baixou, na década de 1950, um mestre queijeiro de nome DAMIÃO, matuto simples, de pouca instrução formal, mas inteligente, competente, simpático, oriundo de uma cidade em pleno Seridó potiguar – São Fernando – e que revelava um talento extraordinário como contador de causos e histórias.

Além do mais, concluía sempre o relato dos suas experiências, com maravilhosas tiradas filosóficas que nos divertiam bastante, razão pela qual, toda a noite após o jantar mandávamos chamá-lo para uma sessão de boa e divertida prosa, na varanda da casa, que se prolongava por muito tempo.  Guardo, até hoje, duas dessas histórias que são o retrato perfeito desse talento e agudeza de espírito, sobretudo quando combinado com a sua simplicidade nata.

1.       A INCONTESTE AUTORIDADE DE DAMIÃO

Damião morava ainda na sua terra de origem, trabalhando e cumprindo sua experiência no ofício. Vidinha pacata, fazendo o que mais gostava de fazer, rodeado de parentes e amigos e afeiçoado aos costumes de sua pequena cidade.

Foi procurado um dia, pelo chefe político da cidade, para lhe anunciar que havia resolvido nomeá-lo para Suplente de Comissário, notícia que o assustou e de pronto reclamou do Chefe que não se sentia capacitado para o mister, por absoluta falta de experiência e pouca afeição pelo exercício de tão elevado cargo. De pronto foi refutado , sob a alegação de ser merecedor de insuspeitada confiança dos seus superiores e que deveria até agradecer a distinção recebida.

Não se sentiu confortável e depois de maturar e remoer o juízo uma noite inteira, não relutou. Na manhã seguinte, juntou o pouco que podia carregar, fez um matulão, botou nas costas e marchou em direção da estrada que saia da pequena cidade. Quando ainda percorria a ponte sobre o rio que delimitava a cidade, encontrou um amigo que, ao saber da novidade, o interpelou com toda a veemência:

 - Oxente, Damião, que diabo tá acontecendo ? Logo agora que foi nomeado autoridade você deixa a gente e abandona a cidade ?

Damião respondeu de pronto, deu sua explicação e justificou:

- POR ISSO MESMO, AMIGO. JÁ VOU TARDE, POIS  NA  TERRA EM QUE SOU AUTORIDADE EU NÃO MORO ! 

Não tenho notícia se ainda voltou por lá, mesmo a passeio...

2.       OS CAÇADORES DE DAMIÃO

Damião contava a história de três amigos que se embrenharam na mata, de noite, para caçar tatús. Se aprofundaram bastante e se distanciaram muito da cidade em que moravam. Lá pras tantas, um dos amigos se sentiu mal, acometido de um enfarte fulminante e simplesmente (se é que cabe o adverbio) caiu morto.

Os dois sobreviventes desesperados, começam a buscar solução para o problema. Um deles, mais esperto, imaginou logo e propôs ao terceiro:

- Só tem um jeito. Eu fico aqui na mata com o defunto e você vai na cidade buscar socorro, pois não temos condições de carregar o defunto até lá.

O terceiro concordou com a ideia e, resolutamente, ganhou a vereda de volta até caminhar umas cinquentas braças na total escuridão da noite. Parou um pouco, olhou em volta o negrume que o cercava, o silêncio profundo, a total solidão e não vacilou. Percorreu de volta o caminho que já tinha andado e foi decidido para o amigo sobrevivente que ficara com o defunto:

- Não vou sozinho de jeito algum. Não tem quem me obrigue a fazer esse caminho até à cidade.

O amigo então lhe retrucou, do alto de sua sabedoria e com firmeza:

- Então só tem um jeito. Eu vou buscar o socorro e você fica com o defunto...

O triste e covarde sobrevivente, já inteiramente derrotado e borrado nas calças, confessou a sua miséria:

- NEM FICO !

E aí Damião sentenciava, em sua lógica irrespondível e certeira filosofia:

- É ISSO AÍ, “SEU” IVAN. TEM MUITA GENTE NO MUNDO QUE NÃO PRESTA NEM PRA IR, NEM PRA FICAR !

É por isso que ainda hoje, ao me defrontar com a indecisão de certo tipo de gente, costumo usar o paradigma: Esse é como o caçador referido pelo queijeiro e filósofo Damião. Não presta pra ir, nem pra ficar !

terça-feira, 29 de novembro de 2016

A MORTE DA ESPERANÇA

Diante da mixórdia do quadro politico que vivemos hoje no Brasil, assusta-nos o desencanto, a desilusão, a descrença, o desânimo, e o pessimismo que se evidenciam nas manifestações que assistimos pelos noticiários da imprensa e das redes sociais.

O que mais impressiona é que o quadro formado traz um forte sentimento de perda da ESPERANÇA que se apodera da população como se estivéssemos num beco sem saída e na inteira dependência do aparecimento de Salvadores da Pátria, Messiânicos e “Sassás Mutemas” da vida. Isso é ruim, muito ruim, causado sobretudo pelas distorções criadas pela farsa dos fictícios embates ideológicos; pela intentada desqualificação das instituições democráticas e pelo ataque sistemático à qualquer medida profilática no sentido de restabelecer a dignidade tão desfigurada na gestão pública da Nação.

Vou me intrometer e provocar os que, por vezes, gastam mal seu tempo lendo os disparates que eventualmente escrevo e vou falar demais. Sou um eterno e irrecuperável OTIMISTA, por ter vivido todas as crises do país desde 1945 (Redemocratização após o Estado Novo Getulista) e observado que, invariavelmente, sempre surgem soluções harmônicas  que, ao final, sem quebra de paradigmas e da dignidade, encontram a saída para reunificação da Nação.

Da mesma forma que, nas eventuais divergências familiares uma intervenção firme do patriarca resolve a questão e pacifica a comunidade familiar, nos conflitos políticos o empenho, muito diálogo civilizado através de lideranças decentes (ainda existem, por mais difícil que pareça e é só procurar) trará com certeza à luzinha no fim do túnel. Não será, nunca, com a divisão da Nação em nós e eles; coxinhas e mortadelas; heróis nacionais e golpistas; e conforme consagrado durante toda a ditadura militar, patriotas e subversivos!

Aqui cabe um pequeno parêntese: Fui tão inexpressivo durante a ditadura que nunca mereci o enquadramento de subversivo ou corrupto, a despeito de meus notórios comprometimentos políticos. Devo ter sido uma porcaria...

Foi assim em 1945, com o afastamento de Getúlio e as eleições gerais em 1947; em 1950 a volta de Getúlio pelo voto popular; em 1954 com o suicídio de Getúlio e a pronta manifestação do General Lott ao abortar a sedição de Café Filho e Lacerda e assegurar as eleições livres que elegeram Juscelino; em 1961, a renúncia tresloucada de Jânio que gerou um ensaio de insubordinação militar frustrada pelo arranjo da solução parlamentarista que apenas adiou a Ditatura Militar para 1964, com a sua  consequente destruição de vidas, de carreiras e de sentimentos; em 1979, com a solução de uma anistia que deixou sequelas até hoje; em 1988, com a nova Constituição; em 1992, com o “impeachment” de Collor e a solução institucional da assunção de Itamar dentro das regras democráticas e sem a menor agitação; em 2002 a eleição de um homem do povo, retirante da miséria nordestina em contrariedade às oligarquias, com o apoio maciço e alegre da Nação, mas que se viu frustrada com a sua infeliz sucessão e a  tolerância diante da corrupção desenfreada ao converter os seus bandidos julgados, condenados e presos em heróis nacionais; e agora, em 2016, o “impeachment” de Dilma e a assunção de Temer, rigorosamente dentro dos ditames institucionais das regras democráticas, que os seus opositores só aceitam quando lhes são favoráveis. 

Democracia de Ocasião e de Conveniência!

Sou o homem do copo sempre MEIO CHEIO, pois tenho consciência de que a democracia nunca foi fácil, é dura, difícil, exige tolerância às divergências, busca de entendimentos, respeito ao contraditório, civismo e, acima de tudo, não misturar questões políticas com pessoais (olha em que deu a “misturada” que Geddel tentou), conforme aprendi com meus mestres de Política, Arraes e meu velho pai Zébatatinha.

Milito há mais de 70 anos; não tenho inimigos e sim adversários políticos; sempre fui e sou aliado fiel e não servo dos governos a que servi com minhas limitações naturais e muita honra: Arraes, Eduardo, João Lyra e Paulo. Quando, eventualmente, me senti desconfortável, botei o chapéu na cabeça e fui embora com o respeito cabível.

Tenho absoluta consciência de que sem o aperfeiçoamento da sociedade não chegaremos a porto seguro algum. Precisamos fazer a mesma auto-crítica que exigimos dos governantes que erraram.

Passamos a vida inteira reclamando que cadeia no Brasil era só para preto, pobre e prostituta e, de repente, estamos assistindo os maiores empresários do país e seus comparsas doleiros, operadores e políticos julgados, condenado, presos, devolvendo valores expressivos aos cofres públicos. Ao invés de aplaudir, ficamos reclamando lamuriosamente que ainda falta gente, que a condenação é seletiva e está faltando outros políticos na cadeia.

Será que estão com pena dos financiadores das  patifarias e cúmplices dos políticos desonestos, que se constituem na imensa maioria dos condenados e presos?

Claro que o foco inicial voltou-se para o Partido dominante, sobretudo quando ele não tomou a lição do chamado Mensalão e buscou a solução maluca dos “presos políticos” imaginando que estariam acima do bem e do mal, pelo que, terminaram desaguando no Petrolão e a bi-condenação de gente como Pedro Correia e Zé Dirceu.

Agora, de uma coisa podem ter certeza. Se não derrubarmos o indigno Foro Privilegiado, daqui a dez anos ainda não veremos condenação dos felizardos que se encontram homiziados no STF, através da maldita   jabuticaba.

O Parlamento é indigno e composto de titulares que já foram considerados por Lula como 300 “picaretas” e pelo ex-Ministro Cid Gomes como 400 “achacadores” ? É sim, mas na verdade o Congresso Nacional é um retrato em preto e branco do nosso corpo social. Somos todos nós que estamos ali espelhados com a imagem de todos nós que somos responsáveis por suas eleições. Não tem ninguém nomeado. Somos nós que estamos ali representados e – no fundo - foi isso que nos revoltou diante das diatribes praticadas como quando Bolsonaro homenageou um torturador e Eduardo da Fonte colocou um garoto de 14 anos - civilmente incapaz - para representá-los na votação.

Reclamamos da limpeza das ruas, mas todos os dias levamos nossos mimosos cachorrinhos para cagar na rua; reclamamos de ciclovias protegidas mas duvido que não encontrem, a qualquer hora, as bicicletas desafiadoramente atropelando os pedestres nos calçadões e já vi (pasmem) pedestres fazendo cooper nas ciclovias; reclamamos dos privilégios mas furamos filas toda hora; detestamos engarrafamentos no trânsito e protestamos contra a falta de fiscalização, mas paramos sempre em estacionamentos proibidos e ainda reclamamos quando somos multados; condenamos a corrupção, mas não perdemos oportunidade    de distribuir “gratificações” para nos livrarmos das multas ou damos “carteiradas” para obter vantagens;  e vamos por aí a fora.

Reclamar a quem: ao Papa Francisco ou à Mãe do Guarda da Esquina?

Estamos lutando por um país melhor para nossos descendentes e o nosso Brasil é ainda muito jovem, tem um longo caminho a percorrer e não pode esquecer que as grandes transgressões, começam com os pequenos delitos: É fundamental que respeitemos às regras democráticas e às suas instituições mesmo que também cometam erros; Vamos cumprir as obrigações e deveres que nos cabem, além de cobrar os direitos e  as vantagens que também merecemos. Se cumprirmos bem a nossa parte, daremos uma grande contribuição para o melhoramento do corpo social por inteiro.

Mais importante que tudo, não permitamos que os maus DESTRUAM  A  NOSSA  ESPERANÇA.

E chegará o dia em que se criará uma nova concepção, inversa à preconizada por Ruy: O BRASILEIRO TERÁ VERGONHA DE SER DESONESTO!


             

O DIREITO DE SER VEM-VERGONHA

É SABIDO QUE TODO VELHO CADA DIA DORME MENOS E COCHILA MAIS e essa é uma das minhas condenações. A vigília insone sempre proporciona tempo bastante para pensar e recordar muito as coisas que marcaram nossa vida. As lembranças chegam aos borbotões, boas e ruins, da saudosa juventude e da curtida maturidade. Algumas vaidades inúteis e poucos orgulhos merecidos Dissabores e alegrias, derrotas e vitórias satisfatórias, fatos jocosos e incidentes decepcionantes, mas, no final, o caleidoscópio rola sem fim!

Atiçadas pelo noticiário logo às primeiras horas da madrugada na procura das novidades da Internet, para o que, ligo sôfregamente o computador e começo a peregrinação da caça às informações trazidas do nosso mundinho atraente e cheio de surpresas. Quase sempre muita notícia ruim que nos agride pelo inusitado das ocorrências, sobretudo, nos arredores da política. Quando se pensa que atingimos o fim da picada, observamos quanto ainda está longe o nosso horizonte final.

A barbaridade dos fatos, o comportamento despudorado dos homens públicos, a insensatez das decisões governamentais, a postura indiferente dos parlamentares cujo egoísmo ultrapassa qualquer limite de bom senso, leva-nos à reflexão de que se imaginam pairar em outras galáxias, descompromissados com a sorte da Nação e da miséria dos duzentos milhões de brasileiros, cujo único pecado foi votar neles.

Sempre nos espreitam as ocorrências dos colégios que freqüentei e a sucessão despretensiosa da formação de grandes companheiros e amigos, bem como das figuras excelentes de grandes mestres que nos transmitiram lições que permanecem durante toda nossa vida. Observando a indignidade que caracteriza a grande maioria dos nossos dirigentes, lembrei-me de uma figura exemplar de Mestre e de uma de suas clássicas reprimendas.

Ainda no Diocesano de Garanhuns, cursando o ginasial, tive, entre outros bons, um professor do porte de Dr. Antônio Tenório da Fonseca. Por longos anos, não tive notícias dele e de sua família que lamento muito.  Sério, primoroso em sua didática, respeitável e respeitado, invariável em seu terno e gravata, paletó de três botões sempre abotoados, exigente e elegante no seu trato com os alunos. Isso não impedia que alguns alunos, por vezes rebeldes e indisciplinados merecessem de vez em quando uma austera chamada à ordem.

Dirigia-se ao indisciplinado e sem levantar a voz, dizia:
Meu filho, você está abusando do direito de ser sem-vergonha.”

Lembrei-me do Prof. Tenório e de como seria oportuna a sua intervenção nos dias de hoje, quando leio sobre o episódio acerca do comportamento de um impúdico Ministro Geddel, confessando que usou o cargo para defender seu interesse pessoal mesmo que se chocando com uma decisão técnica de um órgão como o IPHAN, e que,  para tanto, enfrentasse um seu colega de Ministério e o ameaçando de recorrer ao próprio Presidente da República.

Do mesmo modo, um medíocre Ministro Callero que, ao ser pressionado, comportou-se como menino contrariado, ao invés de, como Ministro da República fazer valer o parecer técnico do órgão que lhe era subordinado e que entendia como correto para o interesse público, preferiu o caminho pusilânime da rendição, deposição das armas e queixas à Polícia Federal. Só faltou ir à Delegacia mais próxima, consignar um B.O. e depois ir reclamar ao seu irmão mais velho!

Mais triste ainda um vacilante Presidente, dizendo em nota oficial que (sic) : ”sugeriu a participação da AGU para solucionar dúvidas entre órgãos da administração” quando nada disso aconteceu e sim uma decisão do IPHAN nacional, sobreposto hierarquicamente ao IPHAN baiano, apoiada pelo Ministro da Pasta competente. Se algum conflito existiu, foi decorrente da interferência INDEVIDA do Sr. Geddel em defesa de seu interesse pessoal (dono confesso de um apartamento no prédio embargado) e não tem absolutamente NADA  A  VER  com o interesse público.

Diante do ensinamento que recebi do Prof. Tenório em minha juventude, a ilação foi inevitável: Tem muita gente em nossa maltratada Nação que está abusando do DIREITO  DE  SER  SEM-VERGONHA!

P.S – Já tinha redigido esse texto, quando chegou a notícia de que o Geddel (ufa, até que enfim...) entregou o cargo que ocupava sem qualquer pudor!