quinta-feira, 13 de novembro de 2014

APRESENTAÇÃO DO BLOG


Vez em quando, sou solicitado a escrever um livro com as minhas histórias, memórias, recordações, casos e causos, estórias e sempre relutei muito. Por não gostar do que escrevo e recear o desagrado, sempre reagi à ideia.

De repente, percebo que estou virando um arquivo ambulante e constato que, pelo menos para resguardo da memória, os velhos têm grande serventia e se não aproveitarmos o pouco tempo que nos resta, corremos o risco de perdê-la, sobretudo ao considerar que – no meu caso – descubro ser o provecto Patriarca da Família.

Minha querida sobrinha Maurinha escreve-me, após ler um relato que fiz sobre o 1º de abril de 1964:

“Tio: Li o texto e ele me deu a certeza de que o senhor precisa escrever um livro narrando não só os episódios políticos, mas todas as histórias que refletem a memória familiar. Pensei até algumas no gênero crônica. Quero que meu neto leia um dia para sentir o ritmo de suas histórias e o quanto uma vida pode ser permeada de sentido.”

Na ante sala do Secretário de Saúde, defronto-me com Maria Helena, filha de Sebastião Moura Lins, que foi grande amigo de nossa família e começo a contar-lhe as maravilhosas estórias que seu pai criava. Logo se montou à nossa volta um entusiasmado auditório que se deliciava com a capacidade criativa de Sebastião e reclamei da família Moura Lins pela falta de registro dessas histórias. Ela de pronto me desafiou:

“Já que o senhor conhece tanto a obra de meu pai, porque não a escreve ?”

No Facebook onde me inclui como “velho amostrado”, num grupo de pessoas maravilhosas organizado pela querida Cora Valença, como “Fatos e Fotos Antigas de Garanhuenses”, começo a ser reconhecido como pronto socorro para o resgate de coisas antigas de nossa terra. Virou lugar comum:

“Essa só Ivan pode lembrar! Corre Ivan, vem acudir a gente!”

Ainda no Facebook, Mirandinha, filho do querido amigo Antonio Miranda de Lima e estimado aldeão da Rua Dantas Barreto, fez uma bela postagem que intitulei de “Evocação de Mirandinha” e guardei nos meus arquivos, depois de deliciados lermos o texto referido (Eu e Pedro Leonardo, meu filho). Em outra postagem, o mesmo Mirandinha provocou:

“Acho que você não pode deixar de legar para Garanhuns o seu magnífico repertório e sua fabulosa memória”

Mesmo que Mirandinha tenha esquecido a lição de Cervantes pela boca do Cavalheiro Don Quixote de que: “elogio em boca própria é vitupério”,  o que vale também para a generosidade dos amigos, obriguei-me a poucos dias a dizer para ele e Corina que:

“Minha querida Cora e Mirandinha: Rendí-me! Quando respondia aos seus apelos exigindo que eu escrevesse as coisas de Garanhuns para que a história não se perdesse, dizia sempre que quando ficasse velho consideraria os apelos. Não é que nessa semana descobri que estou velho! Ao renovar minha carteira de motorista fui advertido pelo servidor do DETRAN: Na sua idade a validade da carteira renovada é de apenas UM ANO! Caiu a ficha e o jeito é  começar a escrever as coisas lindas e inusitadas de nossa terra. O que fazer dos escritos é outra estória e depois a gente resolve se vale a pena ou não”.

Como se vê, a minha espectativa de vida para os burocratas do Detran e de apenas um ano, salvo a melhor hipótese de uma conjugada cegueira, surdez, caduquice, cadeirante, enfim todo um elenco de inutilidades que me tornariam um velho imprestável. Decidí, portanto, enfrentar o encargo aprazível de contar as histórias e estórias que sei, esperando que sirvam para alguma coisa, além de propalar as coisas lindas de nossa terra e deixar assinaladas minhas inquietações e divergências.

Claro que seria imperdoável atirar-se no esquecimento da história de Garanhuns, as figuras extraordinárias de loucos maravilhosos como Manoel das Estrelas, Jeitoso, Catrevage; os bêbados como Bode Cheiroso cujo nome verdadeiro era Plínio, o Rei Simão Ramos Dantas que se dizia “Rei de Portugal e do Mundo Inteiro em Geral”, o velho engraxate Borburema que, até morrer, foi o correligionário mais fiel do Deputado Elpídio Branco; os ícones dos carnavais de nossa terra como Nestor Carrascozo e Messias Orani do Bloco Vassourinhas, Leopoldo Leite do Bloco de Macaíba e Maria Lúcia; os magnifícos exemplares de nossa Parada Gay como Otávio Tipógrafo, Rosinha e o nosso querido Matéria Plástica ainda vivo, lúcido e capaz de reproduzir todas as músicas das campanhas políticas de Garanhuns (Verdadeiro Arquivo que precisa ser gravado depressa); as belas vozes e músicos que encantavam as nossas festas e as nossas serestas como Manoel Teles, João Correia, Manoel Gouveia, Manoel de Sargento, Pernambuco, maestro Lula Figueiredo, Professora Zulmira Fogo mãe do brilhante pianista Ronaldo White que ainda se dava ao luxo de ser um notável pintor, toda família Xixi responsável pela formação de milhares de instrumentistas de nossa terra; nossos pintores e retratistas como Ronaldo White, Walter Vieira, Agilberto Dourado; intelectuais como Luis Jardim, Arthur Maia; atores e responsáveis pelas manifestações teatrais do Grêmio Polimático de Garanhuns, como Sr. José João de Carvalho seu filho Arnaldo e suas filhas Esmeralda e Cremilda, Alfredo Leite, Manoel Gouveia, José Elesbão; visionários como Euclides Dourado idealizador do Parque que tem o seu nome e do bairro de Heliópolis, Ruber Van Der Linden  que associou o seu nome a todas as inovações tecnológicas surgidas aqui no século XX; jornalistas como Dario Rego, João Domingos da Fonseca, Satyro Ivo Júnior, José Francisco de Souza, Professor José Rodrigues, Ulisses Pinto, a sempre querida unanimidade garanhuense de Humberto de Morais; educadores como Pe. Adelmar e toda a família Valença, Seu Thompson, Madame Verônica (era assim chamadas as madres do Santa Sofia) que marcaram à sua época os grandiosos colégios que dirigiram; enfim, trata-se de uma história rica cujo registro não pode ficar afeto apenas à poucas pessoas – é responsabilidade de toda a Comunidade Garanhuense que precisa conscientizar-se desse encargo.

Não sei se consigo, mas espero fazer a minha parte!




11 comentários:

  1. Belo texto de apresentação. Pelo conteúdo podemos esperar um infinidade de excelentes histórias e estória.

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  2. Paulo Helder Medeiros14 de novembro de 2014 11:43

    Aprovadíssimo!
    Já estou no aguardo das próximas publicações.

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  3. Maravilha meu querido Ivan Rodrigues!

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  4. Acompanho e me delicio com todos os seus comentários nas fotos postadas no "Fatos e Fotos Antigas". A cada solicitação dos participantes para que o senhor publicasse um livro com seus causos e histórias do nosso povo, eu torcia na esperança de vê-lo render-se a tantos apelos. E qual surpresa hoje ao entrar no face e me deparar com a sua nota e link que me direcionou a essa página que tem tudo para ser um fabuloso sucesso! Sempre fui fascinado por Garanhuns, sua história e seu povo e somente após ter lido alguns livros ("A história de Garanhuns"; "Os Aldeões de Garanhuns", "Garanhuns do meu Tempo"; "A hecatombe de Garanhuns" e a "Bala e a Mitra") é que pude compreender a grandeza e a beleza daqueles que ajudaram a construir a nossa cidade. Ao mesmo tempo em que saboreava o passado, entristecia-me ao lembrar que na época áurea da minha mocidade (década de 80), muitos desses senhores octogenários e alguns já no centenário, ainda desfilavam pelas ruas da nossa cidade em completo anonimato. Recordo-me de quantas vezes ter encontrado com o Sr. Manoel Gouveia debruçado em sua janela na Av. Rui Barbosa, noite a dentro, a escutar, em alto e bom som, as belas canções do passado, ou até mesmo dentro da Livraria Escolar, cantarolando. Recordo-me do Sr. Firmo de Santana (Byron Urquiza de Santana), quando gerente do cinema Jardim, onde meu pai trabalhava, e a gente sem entender a pronúncia do seu nome, chamava-o de seu "firme". Recordo-me de um outro senhor que vez por outra encontrava pela Av. Sto Antonio, simpático a quem cumprimentava e que anos depois em visita ao S. Miguel, deparei-me com a sua foto em um jazigo e descobri que se tratava de Francisco Leal, conhecido como Chico Leal. Todo este relato para revelar da minha tristeza por ter cruzado tantas vezes por esses digníssimos e não ter tido o privilégio de sentar lado a lado e ouvir suas histórias! Por isso a minha alegria em poder encontrar este espaço e ter a certeza que, assim como muitos, terei momentos inesquecíveis do tempo em que uma geração fraterna cultivou histórias e amizades e ainda hoje pode compartilhar com orgulho! Parabéns por mais essa iniciativa.

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  5. Eita Ivan!! que maravilha!!! agora vai!!! Como minha irmã já falou lá em cima,você e toda sua família têm nossa mais profunda admiração. Lembro tanto quando Zé Batatinha e Carminha iam na casa de vovó...a gente ficava se chegando pra pertinho pra poder ouvir os " causos" que seu pai contava sempre com aquele vozeirão! ele dava um beijo na cabeça de cada um de nós(crianças) e deixava a gente com o cheiro do charuto! o que deixava a gente morrendo de rir! lembro tambem com tristeza da primeira vez que o ví depois que perdeu a visão e foi na casa de vovó. Ele andando,segurando nas cadeiras,tropeçando mas com uma alegria tão grande que me deixou pensativa sem entender como uma pessoa poderia não enxergar e ser tão feliz! E pela minha admiração e respeito escolhí Ivaldo pra ser meu padrinho de casamento. Vá em frente que nós estaremos sempre te apoiando e te prestigiando! parabéns!

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  6. Pela apresentação, imagino o que virá desta mente brilhante! Parabéns!

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  7. Digna de uma pessoa com a sua bagagem cultural.

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  8. Coisa boa na vida é descobrir quem faz a diferença na vida da gente. Tenho o privilégio do convívio mais estreito que às vezes o trabalho nos proporciona. Dr. Ivan é uma fonte inesgotável de sabedoria, experiência, cultura e bom humor. Ouvir as histórias, estórias, casos e causos que conta com desenvoltura e graça, torna qualquer pausa para o cafezinho num pretexto para momentos de agradável prosa e às vezes de pura poesia. Parabéns, Dr. Ivan pela criação do blog que, seguramente, vai proporcionar aos seus amigos e seguidores, momentos de puro deleite. Serei atenta leitora e seguidora de suas crônicas, as quais aguardarei com ansiosa expectativa. Um abraço e sucesso.

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  9. Meu Caro Ivan

    Que presente você nos deu ao nos brindar com o o blog "memoriaseinquietaçõesdeivan". Permita-me tornar público o privilégio de compor o qualificado grupo dos seus amigos e admiradores e que tive a minha ficha de inscrição abonada por você nos idos de 1986, quando você intermediou a minha conexão com Dr. Arraes, que resultou com a combinação da sua coordenação política no governo e a minha condução técnica na CELPE, na realização do maior Programa de Eletrificação Rural da América Latina.
    É muito bom reviver os sonhos de Manoel das Estrelas.
    Faço-lhe, por fim, um comunicado: Sinta-se autorizado a relatar a consulta médica de Expedito Bolão com Dr. Epitácio, na década de 60 em Mossoró.
    Abs
    Helio Lopes

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  10. Que iniciativa bacana, Ivan! Tomei conhecimento desse blog através de Miranda. Estou gostando muito de compartilhar com todos os meus conterrâneos essa maravilhosa experiência que a tecnologia moderna nos permite, Muito bem, Ivan e caros conterrâneos.Foi uma excelente iniciativa, vamos dar continuidade a esse maravilhoso projeto. Parabéns!

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