terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

FAZENDA SANTA ROSA

Poucos dias atrás, no Facebook, mantive um bom e respeitoso debate com Luciclaudio Góes e, como sempre me acontece, busco na memória referências familiares de antigamente. Foi inevitável a lembrança do meu grande amigo Zé Neto (José Neto de Lima para os estranhos) que foi uma figura marcante na história de Garanhuns, sempre ligado à Fazenda Santa Rosa, como assim a chamávamos.

Zé Neto, ex-aluno da instituição, chegou à condição de seu Diretor e notabilizou-se, sem favor e sem demérito dos demais, como o maior gestor da história da Fazenda Santa Rosa. Hoje reconhecida como Fazenda Esperança, por conta de oportuna doação promovida pelo Governo de Joaquim Francisco à Diocese de Pesqueira, abriga uma unidade da instituição mantida pela Igreja Católica para recuperação de afligidos por vícios. Na época era administrada pela Secretaria de Agricultura do Estado e conhecida como FAZENDA SANTA ROSA, não obstante o pomposo nome de Estação Experimental e Aprendizado Agrícola Santa Rosa, resumido como E.E.A.A. Santa Rosa.

Dava gosto visitar e ver funcionar - era francamente aberta aos visitantes - a organização da Fazenda e o nível de preparação dos seus alunos. Na sua imensa maioria oriunda das classes mais modestas, dispunha de uma equipe de professores, residentes na própria Fazenda, que dedicavam tempo integral na formação educacional no primeiro grau e profissional dos seus alunos em instalações primorosas, embora humildes.

Salas de aula saudáveis, dormitórios e alojamentos modestos, mas decentes, para os alunos em regime de internato. Tudo limpo e arrumadinho, a cargo dos próprios alunos, dando e aprendendo lições de cidadania que hoje nos faz falta. Aqui cabe uma observação: Tenho uma neta que estudou medicina em Cuba na Escuela Latino-Americana de Ciências Médicas (ELAM) durante seis anos e meio e ela era responsável, com mais cinco colegas, pela limpeza e arrumação do seu alojamento. E a fiscalização era severa. Aqui, quem pensar nisso hoje, é acusado de pregar trabalho escravo..... 

Equipamentos, instrumentos agrícolas, material técnico e plantações disponíveis para o ensino profissional comandado por agrônomos e zootecnistas. Boas técnicas agrícolas eram disseminadas e manejo animal recomendado. Milhares de jovens passaram por suas bancas e as vagas eram disputadas por outros tantos.

Nos desfiles cívicos em Garanhuns, sua presença era realçada pela ordem, pelo fardamento branco sempre impecável, pela excepcional qualidade de sua banda, pela cadência de sua marcha, e, invariavelmente, lá estava Zé Neto de terno e gravata acompanhando os seus “meninos” durante todo o percurso, como se fora o maravilhoso regente de uma afinada orquestra. Exatamente como Padre Adelmar fez durante toda sua vida com os pixotes do “Gymnasio”.

Alguns devem se lembrar, ainda, dos desfiles da Fazenda Santa Rosa e do respeito que todos nós tínhamos à instituição. É provável que ainda existam ex-alunos remanescentes que poderiam melhor comprovar e fotos que possam documentar tão notável existência. Seria injusto que perdêssemos a memória de quem fez tanto bem à nossa terra através da socialização de muitas gerações de adolescentes em todo o Agreste Meridional.

Não me perguntem, pois não tenho explicações, mas jogaram a Fazenda Santa Rosa em um  terrível, lento e inexorável abandono e, sem percepção nem protestos, conseguiram destruir tão magnífica iniciativa. Quando a Fazenda Esperança assumiu, estava quase em ruínas! Inexplicável, mas de forma sub-reptícia, em omissão dirigida, afundaram um dos mais notáveis modelos de assistência ao menor, que faria inveja, ainda hoje, às sofisticadas e complexas experiências e propostas emanadas dos congressos, seminários, centros de estudos e etc., de composição multi-disciplinar, que se repetem exaustivamente ao longo dos anos e só fazem garantir o movimento financeiro dos grandes centros de convenção e dos luxuosos hotéis cinco estrelas.

Mais uma vez, sem busca de culpados, verifica-se que a moda é muito antiga – tornou-se um vezo cultural ! – “AS COISAS BELAS, DIGNAS E EFICIENTES SÃO DESTRUIDAS EM GARANHUNS, SEM O MENOR PROTESTO OU REAÇÃO DA NOSSA SOCIEDADE ORGANIZADA”. 

Em qualquer outro lugar do mundo, o povo iria às ruas marcar seu protesto, bater panelas e consignar sua revolta diante de tamanhas iniquidades. Em Garanhuns, o povo assiste e aceita resignadamente todo o malefício praticado. E depois, reclama-se a quem?


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